A crescente base de evidências da Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (tDCS) tem impulsionado a sua adoção na prática clínica para diversas condições neuropsiquiátricas.
A aparente simplicidade da técnica, no entanto, esconde uma complexidade que exige rigor, conhecimento e um compromisso intransigente com a segurança do paciente.
Este guia destina-se a profissionais de saúde e oferece uma análise aprofundada e educacional sobre os procedimentos e precauções necessários para aplicar a tDCS na prática clínica de forma segura e eficaz, com base nas diretrizes e melhores práticas internacionais.
Fundamentos da Segurança em tDCS
A segurança da tDCS não reside apenas na baixa intensidade da corrente, mas na compreensão dos princípios biofísicos que governam a sua interação com o tecido biológico.
O principal objetivo é administrar uma dose terapêutica de estimulação sem causar dano tecidual, nomeadamente queimaduras cutâneas.
Fatores como a densidade da corrente (mA/cm²), a duração da estimulação e a impedância da pele são variáveis críticas que devem ser controladas.

A utilização de uma solução salina isotónica (geralmente NaCl a 0.9%) é fundamental.
A água pura é um mau condutor, enquanto soluções muito concentradas podem ser irritantes. A salinidade adequada garante uma condução homogénea da corrente, minimizando a resistência e o risco de pontos quentes (“hotspots”).
A qualidade dos elétrodos e das esponjas também é crucial. Devem garantir um contacto uniforme com o couro cabeludo, sem dobras ou bolhas de ar que possam concentrar a corrente e causar desconforto ou lesões.
Avaliação e Triagem do Paciente (Screening)
Uma aplicação segura da tDCS começa muito antes de o aparelho ser ligado. Começa com uma avaliação clínica e uma triagem de segurança rigorosas.
Este passo inicial é fundamental para identificar pacientes que possam ter um risco aumentado de efeitos adversos e para garantir que a indicação do tratamento é apropriada.
A avaliação deve ser conduzida por um profissional de saúde qualificado e devidamente documentada no processo clínico do paciente.

A triagem deve abranger as seguintes áreas:
Contraindicações Absolutas
Estes são fatores que excluem o paciente do tratamento com tDCS devido a riscos de segurança inaceitáveis:
- Presença de implantes metálicos intracranianos: Clipes de aneurisma, certas próteses ou fragmentos metálicos (excluem-se implantes dentários ou de titânio, que geralmente são considerados seguros).
- Implantes eletrónicos ativos: Como estimuladores cerebrais profundos (DBS), estimuladores do nervo vago (VNS) ou pacemakers cardíacos, que podem sofrer interferência.
Contraindicações Relativas
Estas são condições que exigem uma avaliação cuidadosa da relação risco-benefício e, possivelmente, uma monitorização mais intensiva:
- Histórico de epilepsia ou convulsões: Embora o risco seja baixo, a tDCS pode modular o limiar convulsivo. A decisão de tratar deve ser ponderada.
- Lesões cutâneas ativas no couro cabeludo: Feridas, dermatites ou infeções nos locais de aplicação dos elétrodos impedem o tratamento até à sua resolução.
- Gravidez: Embora não haja evidências claras de dano, a segurança da tDCS na gravidez não está estabelecida, sendo geralmente evitada.
Equipamento e Preparação para a Sessão
A qualidade e a correta preparação do equipamento são pré-requisitos não negociáveis para a segurança na tDCS na prática clínica.
O uso de equipamentos de grau médico, com as devidas certificações (como a marcação CE na Europa ou o registo na ANVISA no Brasil), é mandatório.
Dispositivos de origem duvidosa ou destinados ao uso recreativo não possuem os controlos de segurança necessários e não devem ser utilizados em contexto clínico.

Os componentes essenciais e a sua preparação incluem:
- O Dispositivo Estimulador: Deve permitir um controlo preciso da intensidade da corrente e da duração da sessão. Funcionalidades de segurança, como a monitorização da impedância e o desligamento automático em caso de mau contacto, são fundamentais.
- Elétrodos e Esponjas: Os elétrodos são geralmente de borracha condutora. As esponjas devem ter a espessura adequada (geralmente 0.5 cm) e ser completamente embebidas em solução salina antes de cada uso. Devem ser inspecionadas regularmente para sinais de desgaste.
- Solução Salina: A preparação de uma solução de NaCl a 0.9% (9g de sal por litro de água destilada) é o padrão. A utilização de seringas para aplicar um volume consistente de salina (ex: 5-10 ml por esponja) ajuda a padronizar o procedimento.
- Faixas de Fixação: Devem ser elásticas e confortáveis, garantindo que os elétrodos permanecem firmemente no lugar, com um contacto homogéneo durante toda a sessão.
O Protocolo de Aplicação Passo a Passo
A execução da sessão de tDCS deve seguir um protocolo padronizado para garantir a reprodutibilidade e a segurança.

Preparação do Paciente e Localização dos Alvos
O cabelo do paciente deve estar limpo e seco. A pele sob os locais dos elétrodos deve ser limpa para remover oleosidade e produtos capilares.
A localização dos alvos é feita utilizando o Sistema Internacional 10-20, o mesmo método usado em eletroencefalografia (EEG).
Este sistema baseia-se em medições proporcionais do crânio (násio-ínio e distância interauricular) para localizar com precisão áreas corticais, como o Córtex Pré-Frontal Dorsolateral (DLPFC), que é o alvo comum na depressão.
Aplicação dos Elétrodos
As esponjas, devidamente humedecidas, são inseridas nos elétrodos.
Os elétrodos são então posicionados nos locais marcados e fixados firmemente com a faixa de borracha.
É crucial verificar se não existem cabelos presos entre a esponja e o couro cabeludo e se a pressão está distribuída de forma uniforme.
Execução da Estimulação
O procedimento de estimulação deve ser suave e controlado:
- Verificação da Impedância: Antes de iniciar, o aparelho deve verificar a impedância (resistência). Níveis elevados indicam mau contacto e exigem o reposicionamento dos elétrodos.
- Rampa de Subida (Ramp-up): A corrente não é aplicada instantaneamente. É aumentada gradualmente ao longo de 15 a 30 segundos até atingir a intensidade terapêutica (ex: 2 mA). Isto minimiza a sensação inicial de formigamento.
- Duração da Estimulação: A corrente é mantida constante durante o tempo predefinido no protocolo (geralmente 20 a 30 minutos).
- Rampa de Descida (Ramp-down): No final, a corrente é novamente reduzida de forma gradual até zero.
Monitorização Durante e Após a Sessão
A responsabilidade do clínico não termina com o início da estimulação. A monitorização ativa é uma parte integrante da aplicação segura da tDCS.

Monitorização Durante a Sessão
Nos primeiros minutos, o clínico deve perguntar ativamente ao paciente sobre as sensações sentidas.
O paciente deve ser instruído a relatar qualquer desconforto significativo, como dor, queimadura ou tonturas.
O aparelho também fornece feedback em tempo real sobre a impedância e a estabilidade da corrente, que deve ser acompanhado pelo operador.
Procedimentos Pós-Sessão
Após a rampa de descida, os elétrodos são removidos.
O clínico deve inspecionar cuidadosamente a pele sob os locais dos elétrodos, procurando por sinais de vermelhidão excessiva ou qualquer outra alteração cutânea.
Qualquer efeito adverso relatado pelo paciente deve ser registado no seu processo, incluindo a sua intensidade e duração.
Protocolos Clínicos Comuns e Montagens
A eficácia da tDCS depende criticamente da correta montagem dos elétrodos, que varia de acordo com a condição a ser tratada.

A tabela seguinte resume algumas das montagens mais utilizadas na tDCS na prática clínica:
| Condição Clínica | Posição do Ânodo (+) | Posição do Cátodo (-) | Racionalidade do Protocolo |
|---|---|---|---|
| Depressão Maior | DLPFC Esquerdo (F3) | DLPFC Direito (F4) | Aumentar a atividade no DLPFC esquerdo (hipoativo) e diminuir no direito (hiperativo). |
| Dor Crônica (Fibromialgia) | Córtex Motor Primário (M1) | Área Supraorbital (SO) Contralateral | Aumentar a atividade do córtex motor para potenciar as vias descendentes de inibição da dor. |
| Reabilitação Motora Pós-AVC | Córtex Motor Primário (M1) do Hemisfério Afetado | Córtex Motor Primário (M1) do Hemisfério Não Afetado | Aumentar a excitabilidade do córtex motor lesionado e diminuir a inibição do hemisfério saudável sobre o hemisfério afetado. |
A escolha da montagem deve ser sempre baseada na melhor evidência científica disponível para a condição específica do paciente.
Perguntas Frequentes na Prática Clínica
1. O que fazer se o paciente relatar dor ou queimadura durante a sessão? A estimulação deve ser interrompida imediatamente. Os elétrodos devem ser removidos e a pele inspecionada. A causa (ex: má preparação da esponja, mau contacto, densidade de corrente excessiva) deve ser identificada e corrigida antes de se considerar a continuação.
2. Como gerir a habituação do paciente às sensações iniciais? É importante explicar ao paciente que a sensação de formigamento no início é normal e tende a desaparecer. Se a sensação persistir ou se tornar desconfortável, o protocolo deve ser revisto, verificando a impedância e o contacto dos elétrodos.
3. É possível combinar a tDCS com outras terapias na mesma sessão? Sim, e é frequentemente recomendado. Realizar fisioterapia, terapia ocupacional ou treino cognitivo durante a estimulação tDCS pode potenciar os efeitos neuroplásticos de ambas as intervenções, um conceito conhecido como “state-dependency”.
4. Qual a formação ou certificação necessária para um clínico aplicar tDCS? A regulamentação varia, mas é universalmente aceite que a tDCS deve ser administrada por profissionais de saúde com formação específica na técnica. Esta formação deve cobrir a neurofisiologia, os princípios da estimulação, a localização precisa dos alvos (ex: sistema 10-20) e os protocolos de segurança.
5. Qual a posição atual sobre o uso domiciliar (home-use) da tDCS? O uso domiciliar é uma área de intensa investigação. A sua aplicação segura requer uma prescrição médica, um diagnóstico claro, a configuração inicial do aparelho por um profissional e um sistema de monitorização remota (telessaúde). O uso de dispositivos adquiridos online para auto-tratamento, sem qualquer supervisão clínica, acarreta riscos significativos e não é recomendado.
6. Existem preditores de boa resposta ao tratamento com tDCS? A investigação para identificar biomarcadores de resposta está em curso. Alguns estudos sugerem que certos perfis de atividade cerebral em EEG ou a integridade de certas vias neuronais podem prever a resposta. Clinicamente, pacientes com uma aderência rigorosa ao protocolo e que combinam a tDCS com outras terapias tendem a apresentar melhores resultados.
